Água sob suspeita: braço técnico do Ministério Público encontra ácido haloacético acima do limite permitido em Piracicaba e aponta falhas no monitoramento de 'Helinho' (PSD); promotor dá 30 dias para Semae explicar por que dados obrigatórios não foram acompanhados ou divulgados


Captação no rio Piracicaba é a mais comprometida em trihalometanos, mostra relatório com base em dados da Cetesb
(Foto: Pixabay/Documento: reprodução MP)

Cristiane Bonin (MTb 31.139) | de Piracicaba (SP)
Atualizada em 12/09/2026, 01h06

A água que Piracicaba bebe está sob investigação do Ministério Público – e o problema agora vai muito além das quase 200 amostras com excesso de cloro que deram origem à denúncia. Parecer técnico recente do Centro de Apoio à Execução (Caex), braço do Ministério Público de São Paulo, identificou concentração de ácido haloacético (AHA) acima do limite estabelecido pela legislação em redes abastecidas pelas Estações de Tratamento de Água (ETAs) Luiz de Queiroz e Anhumas – só a Luiz de Queiroz abastece 170 bairros, segundo a atual Prefeitura de Piracicaba. O documento também aponta falhas no monitoramento obrigatório e na disponibilização pública dos resultados, conforme portaria do Ministério da Saúde.

A apuração teve origem em representação encaminhada à Promotoria de Justiça de Piracicaba a partir de denúncia jornalística. Foi a reportagem publicada pelo O Diário Piracicabano, em agosto de 2025, que revelou dados do Semae entregues ao Ministério da Saúde apontando 194 amostras de água com concentração de cloro residual livre superior ao limite de 5 mg/L no primeiro semestre daquele ano.

O levantamento do Caex, porém, ampliou o foco da investigação do jornal. A análise técnica verificou não apenas o cloro, mas também os chamados subprodutos da desinfecção, formados quando o cloro utilizado para eliminar microrganismos reage com matéria orgânica presente na água.

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ÁCIDO HALOACÉTICO: o que está em jogo para a saúde

O alerta não está no simples uso de cloro para tratar a água. A desinfecção é obrigatória e fundamental para impedir a presença de microrganismos capazes de provocar doenças. O problema aparece quando o processo produz subprodutos em concentrações elevadas.

Segundo o Caex, a exposição prolongada a concentrações elevadas de subprodutos da desinfecção pode representar aumento de riscos à saúde humana. Por isso, a Portaria GM/MS nº 888/2021 estabelece valores máximos permitidos para essas substâncias e determina o acompanhamento periódico da qualidade da água.

No caso do ácido haloacético, o valor máximo permitido considerado na análise é de 0,08 mg/L. E é justamente nesse ponto que o relatório técnico acende a luz amarela: embora ressalve que a quantidade de análises disponíveis seja insuficiente para uma avaliação estatística completa pelo critério da média móvel de 12 meses, os resultados existentes apontaram concentração média acima do limite nas redes de distribuição das ETAs Luiz de Queiroz e Anhumas, o que a reportagem por aqui já tinha antecipado em 2025.

Isso não significa que o Caex tenha concluído que toda a água distribuída em Piracicaba esteja imprópria para consumo ou que a população esteja adoecendo. O parecer é mais cuidadoso — e justamente por isso mais preocupante: diante da insuficiência dos dados, o órgão técnico afirma ser necessária uma avaliação complementar e cobra esclarecimentos do Semae (veja a seguir).

O problema que não aparece na torneira

Um dos pontos mais graves do parecer não está necessariamente no resultado de uma única amostra, mas na dificuldade de saber o que aconteceu de maneira contínua ao longo do tempo.

O Caex constatou que a frequência mínima de monitoramento dos ácidos haloacéticos e dos trihalometanos não foi cumprida em determinados períodos. Em consulta aos sistemas oficiais e aos boletins de qualidade do Semae, os técnicos encontraram resultados referentes a apenas alguns meses. Para 2025 e 2026, só foram localizados registros de janeiro, março e maio (2025) e abril (2026), enquanto a determinação legal é a publicação de relatórios bimestrais.

Na prática, o problema é direto: sem análise periódica, não há como acompanhar adequadamente a evolução da qualidade da água nem calcular com segurança a média móvel de 12 meses exigida pela regulamentação.

O próprio Caex admite que os poucos resultados disponíveis não permitem uma avaliação completa pelo critério legal. Mesmo assim, os dados encontrados foram suficientes para apontar AHA acima do valor máximo permitido nas duas redes mencionadas.

QUASE 200 AMOSTRAS DE CLORO

A questão do cloro também não desapareceu. No primeiro semestre de 2026, o Caex analisou 14.808 amostras de cloro residual livre. Seis estavam abaixo do mínimo obrigatório de 0,2 mg/L. Na outra ponta, 145 amostras coletadas na saída das estações de tratamento apresentaram concentração superior a 5 mg/L, enquanto outras sete estavam acima desse limite na distribuição.

O percentual, segundo o parecer, indica desvios pontuais e não comprova uma falha sistêmica no processo de desinfecção. Mas o próprio Caex destaca que o controle rigoroso da dosagem de cloro é essencial justamente porque existe potencial de formação de subprodutos, entre eles os ácidos haloacéticos.

Há ainda outro fator de preocupação. A avaliação dos dados da Cetesb indica maior potencial de formação de trihalometanos na água bruta do rio Piracicaba: entre 2024 e 2026, 60% das amostras analisadas apresentaram potencial acima de 500 µg/L, contra 20% das amostras do rio Corumbataí. Em resumo, a captação no Piracicaba não é uma boa ideia, um recurso em escala de aumento de uso pelo Semae, passando de menos de 10% aos atuais 20%.


AGORA, O SEMAE TERÁ DE EXPLICAR

Diante dos achados, o promotor João Carlos de Azevedo Camargo, da 12ª Promotoria de Justiça de Piracicaba, encaminhou ao Semae o Ofício nº 2069/2026 e concedeu 30 dias para que a autarquia esclareça as falhas apontadas pelo Caex.

Entre as exigências do MP à prefeitura de Hélio estão a explicação para o descumprimento da frequência mínima de monitoramento, os motivos pelos quais os resultados disponíveis indicaram AHA acima do limite nas redes das ETAs Luiz de Queiroz e Anhumas, a apresentação das análises dos últimos 18 meses e a atualização dos sistemas públicos de consulta, como Sisagua, Vigiagua e o próprio site do Semae. O Ministério Público também quer saber quais medidas estão sendo adotadas para otimizar a dosagem de cloro nas estações Luiz de Queiroz, Capim Fino e Anhumas – estruturas do eixo central do abastecimento público do município.

O caso, portanto, mudou de patamar – para o infortúnio dos jornalecos da cidade que acusaram este jornal de fake news e ao Semae, que usou a Justiça para censurar uma informação de interesse público. A denúncia via jornalismo sério, que começou com quase 200 registros de excesso de cloro e outras questões na distribuição de água a uma grande massa, chegou ao núcleo técnico do Ministério Público e encontrou outro problema: quando os dados necessários para acompanhar a qualidade da água não são produzidos regularmente pelo Poder Público — ou não têm transparência e zelo com o serviço essencial — a população fica sem condições de saber exatamente o que está saindo da torneira.

E agora é o Semae quem terá de explicar.

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