Ex-presidente da Câmara ataca vereadora em pleno Mês das Mulheres por ter usado tempo de líder para falar sobre misoginia


Para Wagnão, alertas sobre misoginia "não tem nada a ver com Piracicaba"; o parlamentar também escanteou polarização nacional, mas votou a favor de título ao ex-presidente Bolsonaro
(Foto: Rubens Cárdia)

No mês em que o mundo debate e olha para as questões da violência contra a mulher, uma fenda de obscurantismo se abriu na sessão camarária de segunda, dia 16, protagonizada pelo ex-presidente da Casa de Leis, Wagnão Oliveira (PSD). Rai de Almeida (PT) usava seu tempo de líder para falar sobre misoginia e citou ataques à deputada Erika Hilton (Psol-SP), eleita presidente da Comissão das Mulheres na Câmara dos Deputados. 

“É uma mulher que tem lutado por direitos e feito a defesa das mulheres, e quero repudiar todo tipo de manifestação misógina, transfóbica e discriminatória contra as mulheres. Portanto, todas as mulheres são aquelas que defendem a nossa pauta. A deputada tem brilhado não só na defesa da pauta das mulheres, mas dos direitos humanos e por uma sociedade igualitária.” 

Mal encerrou sua fala, Wagnão ligou o microfone para afirmar que o assunto não era de interesse da Câmara e que, discursos como o da Rai, feito regimentalmente durante o primeiro expediente e intercalando com votações, provocam a debandada da vereança do plenário com consequente falta de quórum nas sessões. 

“(...) às vezes a gente está aqui, para a sessão, e começa um assunto que não tem nada a ver com Piracicaba. (...) eu acho um absurdo a gente votar e ter que ficar escutando vereadores defendendo deputado federal e estadual do partido. Não tem nada a ver com a cidade de Piracicaba. É por isso que, às vezes, falta quórum na nossa Câmara. Porque o que acontece: é muito mais interessante a gente sair da sessão e resolver alguma coisa para o cidadão piracicabano do que ficar aqui [ouvindo] pessoas falando de Lula e Bolsonaro.”

As réplicas e tréplicas entre Wagnão e Rai dominaram boa parte do primeiro expediente, e o vereador seguiu falando impropérios ao comentar sobre as regras para o tempo de fala: usar da palavra por uma única vez para tratar de assuntos que, por sua relevância ou urgência, interesse ao conhecimento da Câmara.

“Então, se alguém for usar a tribuna como líder e sair fora da linha, que se toque.” Wagnão ainda atacou Rai quanto à interpretação da tal regra para líderes de bancada, que tomou uma invertida. 

“É preciso fazer a interpretação do que está se lendo: quando fala que o líder de bancada pode utilizar da tribuna para falar de assuntos de interesse da Câmara, e quando fala Câmara, fala do interesse da sociedade, e todos os temas que tenho trazido aqui são de interesse da sociedade. Quando falamos contra o racismo, quando falamos contra o preconceito, quando falamos contra o machismo, a transfobia, o ódio contra as mulheres, isso sim interessa às mulheres, interessa à sociedade, interessa aos homens. Estamos, inclusive, em um número recorde de mortes de mulheres por conta do preconceito e isso interessa a todos nós”, disse a vereadora sobre o que deveria interessar também ao nobre edil. 

No fim de 2023 e durante sua presidência, Wagnão votou favorável ao título de Cidadão Piracicabano para o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

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