A discussão com a sociedade sobre a reforma da praça José Bonifácio, Centro, já foi feita com a Acipi (Associação Comercial e Industrial de Piracicaba). Esta foi a justificativa dada pelo líder de governo na Câmara de Vereadores, Josef Borges (PP), para manobrar a base de Hélio Zanatta (PSD) no Legislativo, que barrou a audiência pública na sessão camarária de quinta, dia 5, sobre a obra estimada pela administração municipal em R$ 8,5 milhões – R$ 1,5 milhão menos frente ao projeto anterior.
A base de ‘Helinho’ na Câmara rejeitou o pedido de audiência sobre a praça proposto por Silvia Morales (PV/Mandato Coletivo). O requerimento da parlamentar chamando prefeitura e abrindo para questionamentos da sociedade terminou em 9x7 na sessão presencial e posteriormente ganhou voto contrário também de Thiago Ribeiro (PRD), terminando em 10x7.
Votaram presencialmente contra a audiência Edson Bertaia (MDB), Fábio Silva (REP), Fabrício Polezi (PL), Gesiel Madureira (MDB), Gustavo Pompeo (AVA), Josef Borges (PP), Paulo Henrique Paranhos (REP), Valdir Paraná (PSD) e Zezinho Pereira – Thiago teve seu voto registrado no sistema interno da Câmara, o Siave.
Foram a favor da audiência André Bandeira (PSDB), Laércio Trevisan Jr. (PL), Marco Bicheiro (PSDB), Rai de Almeida (PT), Renan Paes (PL), Silvia Morales (PL/Mandato coletivo) e Wagnão Oliveira (PSD).
Já Alessandra Bellucci (AVA), Ary Pedroso Jr. (PL), Felipe Gema (SD), Pedro Kawai (PSDB) e Rafael Boer (PRTB) se fizeram ausentes – mas todos tiveram presença registrada na chamada regimental e se encontravam no plenário, ou seja, se eximiram de votar.
A justificativa do líder
Mais da metade do tempo gasto por Josef Borges foi para fazer um ataque pessoal a autora do pedido de audiência, Silvia Morales. O líder acusou a parlamentar de politicagem barata, se valendo do olavismo – termo associado ao pensamento e à influência do astrólogo Olavo de Carvalho sobre uma ala do bolsonarismo, caracterizado por um estilo de atuação política que utiliza a guerra cultural, xingamentos e ataques pessoais como ferramenta de desmoralização de opositores.
“Ouvi com atenção a irritação da vereadora [Silvia Morales] de oposição e queria dizer que houve sim um debate com a sociedade. Houve um debate com a Acipi, que é uma instituição de respeito e que representa o comércio, que tanto gera emprego e renda para a nossa sociedade. E esse projeto de reforma da nossa querida praça é uma discussão que já vem há décadas”, defendeu Josef sobre a posição de evitar a audiência.
O ataque do líder
Veja, a seguir, as groselhas olavistas de Josef contra a vereadora Silvia.
“Então, o que eu queria dizer, é que se o candidato da vereadora tivesse vencido, fico curiosos para saber o posicionamento dela. Se seria esse de votar tudo contra a cidade ou se seria de apoiar o projeto vencedor [no caso, dar apoio a Hélio Zanatta]. Ora, ela pode, se gaba que é engenheira, que faz isso, que não sei o quê da cidade, poderia conversar com o secretário. Poderia conversar com a Acipi. Poderia conversar com os comerciantes. Mas não faz. Prefere colocar um requerimento de uma audiência e aí mascara uma politicagem porque quer falar só com o grupo dela. Quer falar contra um projeto importante para a cidade. Isso não é apoiar o município. Você quer fazer uma oposição? Faça uma oposição de resultado. Vá conversar com o secretário. Vá conversar com a Acipi. Vá conversar com os comerciantes. Eu aposto que nunca foi falar com comerciante, com quem vive o dia a dia daquela praça. Teve, recentemente, um projeto para retirar os moradores de rua daquela praça. Qual que foi a reação da vereadora? Não preciso nem falar aqui. É só verem. É preciso acabar com essa politicagem barata. Nós precisamos trabalhar e entender que, se a gente não trabalhar para o desenvolvimento do nosso município, nós, sociedade, não vamos ganhar nada com isso. Fora à politicagem barata.”
Mais groselhas com Polezi
O torneiro mecânico Fabricio Polezi (PL) errou feio ao justificar seu voto contrário à audiência pública: ele defendeu que a obra passaria por aprovação da Câmara, o que não vai acontecer.
“O cenário é sempre o mesmo: o projeto vai entrar na Casa, vai ser discutido na Casa e depois de ser discutido na Casa, apreciado pelo plenário da Casa, num amanhã, aí a gente vai ter um parecer se aprova um projeto ou não. Provavelmente vai ser isso. E já quer meter marcha no cavalo e trazer uma audiência pública. Por quê? Pra esquerda piracicabana fazer o que sempre faz: convoca uma audiência pública sob a liderança deles, não escutam nada de nenhuma justificativa do secretário, do prefeito, dos vereadores da base porque não estão aqui para escutar, mas para deturpar e falar mal. A esquerda trabalha com engenharia social. E qual é a engenharia social? [o vereador gagueja e não consegue explicar o termo] Enfim, é isso que eles fazem. O que mais dói em mim é essa alienação psicológica: tudo tem que travar, nada presta, nada funciona porque tá tirando dinheiro, está roubando dinheiro, onde já se viu? Tem um monte de gente que se diz de direita caindo no colo da esquerda”. Ao terminar esta última frase, o vereador de extrema direita foi interrompido por populares que acompanhavam a sessão na galeria, com o revide verbal “não sou de esquerda, vá conversar com o povo”.
Polezi seguiu falando em uma hipotética manipulação, fazendo com que pessoas acompanhem as sessões “achando que só tem demônio, só tem satanás” na Câmara. Por fim, ele conclui que “audiências públicas são para deturpar o que a gente quer construir, são para atazanar e desconstruir”.
Rolo compressor do Executivo e o revide de Silvia
A parlamentar Silvia Morales foi a primeira a discursar na tribuna após a maioria recusar a realização de audiência proposta por ela, e lamentou o comportamento de rolo compressor que persiste no Executivo – leia abaixo a íntegra da fala da vereadora.
“Já esperava isso porque está um movimento de não discutir nada, de passar o trator, o rolo compressor. Que medo que vocês têm de discutir com a sociedade. Não tem que ter medo. A praça central é a praça principal. A cidade e os espaços públicos são de todos. Não é só da Acipi. Então, a gente precisa discutir com a sociedade. Tem a igreja, comerciantes, vereadores, população, bancos. E eu não consigo entender negar uma audiência pública para a gente discutir que projeto é esse. Vai passar a rua na frente da igreja? Vai iluminar mais? Vai arrancar árvore? Vai reformar o coreto? Vai trocar o piso? O que será feito? Não adianta fazer isso a portas fechadas. A Acipi representa o comércio e uma parte da sociedade. E nada contra a Acipi. Ainda bem que tem bastante gente do governo aqui hoje ouvindo ao vivo – porque deve ter uns ouvindo lá [na prefeitura] ou nas redes – e que levem esse recado: não há o que temer. Já vimos projetos indo e voltando e que não tem esse apelo junto à população. Eu acabo de vir da Conferência das Cidades, em Brasília, onde discussão do urbanismo, do meio ambiente e do saneamento básico é central. Cidades sustentáveis. Cidades boas para todo mundo. Cidades arborizadas. E a gente aqui não discute porque meia dúzia acha que tem que decidir pela cidade. O prefeito e nós fomos eleitos, e representamos uma parte da população.”
Silvia tomou a palavra novamente após as falas do líder e do extremista Polezi.
“Só para explicar ao vereador [Polezi] que me antecedeu, que um projeto arquitetônico, um projeto de engenharia, um projeto construtivo, não passa pela Câmara. Não é um projeto de lei, é um projeto de obra. A discussão em audiência é prevista constitucionalmente e é importante. Existem vários conselhos na cidade, de mobilidade, da cidade, o Comdema. Então, para que servem os conselhos? É uma forma de transparência. [Se dirigindo a Josef] E eu não disse que a Acipi não tem representatividade, mas sim que representa parte da cidade, mas a praça é de todos. E todo mundo quer desenvolvimento da cidade, que está demorando. Mas tem que ter sustentabilidade. Não pode acabar com as árvores, acabar com tudo. Não vem para cá o projeto e por isso que a audiência era importante.”
Quem tem medo de audiência?
A vereadora Rai de Almeida (PT) discursou sobre o medo da transparência pública e destacou não ter dever de conversar com a Acipi, como sugeriu o líder josef, porque o projeto é do Executivo, o ente responsável por prestar esclarecimentos e informações à sociedade.
“Só Acipi tem respeito e o prefeito só fala com a Acipi por conta disso”, questionou, acrescentando nunca ter sido chamada para debater projetos do Executivo. “É um dever de ofício nosso [a transparência pública e pedido de informações]. Qual é o segredo que tem nesse projeto da reforma da praça?”.
Rai se colocou para apresentar novo pedido de informações e acionou Pedro Kawai para intermediar o acesso às informações do projeto “já que o líder do governo não sabe fazer isso” – o tucano integra a base governista de Hélio.
A herança de um projeto
A intenção do prefeito ‘Helinho’ deve seguir o mesmo projeto do ex Luciano Almeida (PP) – paralisado (vide intertítulo) na Justiça pelo vice-prefeito Sérgio Pacheco Júnior no fim de 2024. Esta informação foi dada na mesma sessão de quinta passada pelo vereador da ala governista Gustavo Pompeo – que foi o último a apresentar argumentos após a negativa de audiência sobre a reforma da praça.
O parlamentar destacou a iniciativa da Acipi em pagar pelo projeto durante a gestão de Luciano e apresentá-lo ao Executivo, e cutucou que não há outras propostas de outras instituição ou pessoa. Por fim, Pompeo acabou entregando que ele mais o presidente da Câmara, Rerlinho Rezende (PSDB), reapresentaram o mesmo projeto da Acipi a Zanatta como demanda do setor do comércio.
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