As obras pretendidas pelo governo Hélio Zanatta (PSD) às margens do rio Piracicaba têm sinais de impactos ambientais em duas áreas públicas com características de APP (Área de Proteção Ambiental) e zona de alagamento do corpo hídrico. Vinte árvores serão eliminadas para a construção de uma nova passarela para ligar a Área de Lazer do Trabalhador e o Parque da Rua do Porto. Na área de lazer, conhecida por sua pista de skate, a intenção da prefeitura é a de impermeabilização do solo para um estacionamento, impactando até 9.00 metros quadrados – o correspondente a sete piscinas olímpicas. A reportagem questionou a prefeitura, mas nenhum esclarecimento foi prestado.
PASSARELA
A concorrência no 06/26 para a passarela sobre a av. Dr. Paulo de Moraes disponibiliza, na planilha orçamentária, informações bem claras numa tabela com o nome ‘Corte de árvores’ ao custo total de R$ 63,85 mil. São dez indivíduos com diâmetros entre 30 e 60 centímetros – vegetação com possibilidade de idade superior a 100 anos. Outras dez árvores estão listadas com diâmetros entre 15 e 30 centímetros, com idade de até 20 anos. A mesma planilha ainda inclui carregamento mecanizado de entulho fragmentado, transporte de solo, taxa de destinação de resíduo sólido e Estudo de Impacto Ambiental – indicando que a prefeitura irá contratar com a mesma empresa tanto a obra como os prejuízos ao meio ambiente, uma situação um tanto controversa.
Esta etapa de supressão de vegetação está planejada para o primeiro mês das obras, com previsão de duração de nove meses e pelo preço estimado em R$ 6,39 milhões e o pregão corre dia 9 de junho. O projeto é do escritório de arquitetura Inplenitus, com sede na Capital paulista, a mesma empresa de Portugal responsável pelas reformas da Rua do Porto em um trecho de quase 9km, entre outras iniciativas de ‘Helinho’ e heranças da gestão passada de Luciano Almeida (PP). Em audiência pública na Câmara de Vereadores, o secretário de Obras Luciano Celêncio afirmou que nenhuma árvore seria suprimida – apenas as doentes e leucenas.
E vale lembrar que a possibilidade de uma construção de uma passarela já foi discutida num passado recente, inclusive no Legislativo, mas para ligar o Centro Cívico à Rua do Porto, a fim de equacionar o problema de estacionamento com as vagas ociosas aos fins de semana e feriados em área do prédio da prefeitura – o que poderia suprimir tal necessidade também na Área de Lazer do Trabalhador.
ÁREA DE LAZER DO TRABALHADOR
A intervenção contratada por ‘Helinho’ com a empresa Concivi, em 7 de abril deste ano, também guarda relação com a gestão Luciano Almeida. A concorrência no 10 é de 2025 e, se parece com a tentativa da prefeitura em 2024, calculada em R$ 3,27 milhões e contratada agora por R$ 4,88 milhões. São 73 vagas de estacionamento para o espaço, o que motivou denúncia ao Ministério Público, no último dia 30, por parte da Sodemap (Sociedade para Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba).
Conforme documento direcionado à promotora Sandra Regina Ferreira da Costa, mesmo com o projeto de obras definindo “adequar vagas in loco, sem interferir nas árvores existentes e nenhuma árvore poderá ser suprimida”, a implantação de um estacionamento tem potencial para causar danos ambientais com “até 9.000 m² da área podendo sofrer impermeabilização ou intensa compactação do solo", número que corresponde a 7,2 piscinas olímpicas. Também vale o destaque do espaço da área de lazer estar dentro da zona de alagamento do rio Piracicaba.
“Ainda que não haja supressão direta imediata [de vegetação], a compactação do solo causada pela circulação intensa de máquinas, obras e veículos compromete seriamente o sistema radicular das árvores, podendo ocasionar enfraquecimento progressivo, doenças, queda e morte futura de espécimes arbóreos”, informa a Sodemap ao MP.
A entidade também informa ao órgão que o projeto tem irregularidades porque não foi submetido aos conselhos de Defesa do Meio Ambiente de Piracicaba (Comdema), de Mudanças Climáticas de Piracicaba (Comclima) e da Cidade de Piracicaba. “Tal ausência de participação institucional afronta princípios fundamentais da gestão democrática da cidade, da transparência administrativa, da participação popular e da prevenção ambiental, previstos na Constituição Federal, no Estatuto da Cidade e na legislação ambiental brasileira.”
A Sodemap pede ao MP:
1. A instauração de procedimento investigatório para apuração dos impactos ambientais e urbanísticos do projeto;
2. A verificação da legalidade do processo de licenciamento ambiental e urbanístico eventualmente em curso;
3. A exigência de apresentação integral dos estudos ambientais, hidrológicos, de drenagem, permeabilidade do solo e impacto climático da intervenção;
4. A exigência de realização de audiências públicas amplas e transparentes com participação efetiva da população;
5. A exigência de submissão obrigatória do projeto aos Conselhos Municipais competentes, especialmente Comdema, Comclima e Conselho da Cidade;
6. A apuração de eventual improbidade administrativa ou mau uso de recursos públicos caso sejam constatadas irregularidades técnicas, ausência de planejamento adequado ou implantação de estrutura incompatível com área sujeita a alagamentos;
7. A adoção de medidas cautelares visando impedir o início das obras até conclusão das análises técnicas e institucionais pertinentes; e
8. A fiscalização rigorosa sobre eventual dano ambiental direto ou indireto à vegetação nativa e ao ecossistema associado às margens do Rio Piracicaba.
Laudo mostra impacto ambiental na área de lazer
Confira os principais pontos levantados sobre a implantação de estacionamento na Área de Lazer do Trabalhador em laudo produzido pelo engenheiro florestal Girlei Costa da Cunha, mestre em Ciências pela Esalq/USP, a convite de Juan Sebastianes, presidente da Amapira (Associação dos Amigos da Cidadania e do Meio Ambiente de Piracicaba) e ex-vereador do município.
🌳 Impacto severo sobre vegetação nativa e rara
- Presença de espécies raras e de alto valor ecológico (peroba e jequitibá-branco).
- Área funciona como reserva de biodiversidade e banco de sementes.
- Intervenção compromete diretamente esse papel ambiental estratégico.
⚠️ Alto nível de impacto — praticamente inevitável
- 100% das 33 árvores avaliadas serão impactadas, mesmo as que estão fora da área pavimentada. Isso ocorre porque as raízes se estendem para dentro da área do estacionamento e projeto não respeita a área de influência real das árvores.
🌱 Perda de condições vitais do solo
- Impermeabilização do solo reduz água e nutrientes disponíveis.
- Risco de alagamento e formação de brejo devido ao represamento de água.
- Pode levar à morte das árvores remanescentes e alteração do ecossistema.
🌳 Risco estrutural e de queda de árvores
- Possível corte de raízes grossas, reduzindo estabilidade.
- Árvores altas (até 23 metros) aumentam o risco de acidentes.
- Histórico do solo (entulho e areia de fundição) favorece enraizamento superficial e instabilidade.
⚖️ Riscos legais e de segurança
Aumento da probabilidade de queda de árvores e galhos, com:
- Danos materiais.
- Risco à vida.
- Possibilidade de responsabilização civil dos responsáveis pela obra.
📉 Contradição relevante do projeto
Árvores estão em bom estado fitossanitário (quase 90%) e poderiam viver por centenas de anos. Mesmo assim, o projeto implica em degradação de um patrimônio ambiental saudável e longevo.
🧾 Síntese crítica
O laudo indica que a implantação do estacionamento gera impacto ambiental significativo, abrangente e potencialmente irreversível, atingindo espécies raras, comprometendo a saúde do solo, elevando riscos de acidentes e criando possíveis passivos legais — tudo isso sem justificativa técnica que minimize efetivamente esses danos.
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