Edvaldo Brito não tem formação em psiquiatria e não possui formação acadêmica em Assistência Social (Foto: Rubens Cardia) |
O absurdo do absurdo existe e foi dito pelo secretário de Assistência Social, Edvaldo Brito, em audiência pública na Câmara de Vereadores sobre pessoas com surto psicótico:
“O melhor tratamento terapêutico para esse pessoal chama-se trabalho”. Ele se referia a um caso ocorrido nas imediações da Mansão Rubi, no Vale do Sol, com uma pessoa em surto. No local está instalado o serviço social de pernoite do projeto Superação, ação nada transparente. E “esse pessoal” se refere a pessoas em condições de rua abrigadas pela prefeitura e empregadas em frentes de trabalho sem muitas informações públicas sobre direitos trabalhistas e em quais funções atuam.
A ciência diz o contrário do secretário, que não tem qualquer experiência formal na medicina quanto menos na área que ele ocupa a cadeira de chefia. As pessoas em surto psicótico ativo geralmente não têm melhora indo ao trabalho, e ponto. Pelo contrário, o ambiente de trabalho durante uma crise aguda pode ser prejudicial e o surto exige socorro profissional imediato.
O surto é uma condição crítica que requer intervenção médica, e não um ambiente com exigências de produtividade. Na outra ponta, o trabalho, este sim, tem motivado recorde na última década em doenças mentais: o Brasil teve mais de 546 mil afastamentos por saúde mental em 2025.
A fala descabida de Brito aconteceu na audiência realizada nesta quarta, dia 24, por conta da instalação do projeto Superação na Mansão Rubi, localizada na região dos bairros São Mateus e Parque das Águas – um serviço da prefeitura de acolhimento temporário para pessoas em situação de rua. Ele rebatia o caso de uma pessoa que teria entrado em surto e invadido uma residência na redondeza.
NISE
O professor Donny Correia, doutor em história da arte (USP), destaca o trabalho revolucionário da psiquiatra Nise da Silveira, que observou uma "acentuada diminuição de surtos psicóticos, de surtos esquizofrênicos" quando pacientes eram envolvidos em atividades de trabalho terapêutico e arte – trabalho como terapia, não como dever. A médica psiquiatra brasileira revolucionou sua área ao mostrar alternativas humanizadas aos tratamentos violentos da época (eletrochoque, lobotomia).
Importante entender não ser correto dizer que "trabalhar cura surtos psicóticos" no sentido simplista. Pelo contrário e seguindo Nise, as atividades terapêuticas ocupacionais (como arte, trabalhos manuais) podem reduzir significativamente a frequência e intensidade dos surtos.
Para conhecer um pouco da história de Nise, há um filme com seu nome e interpretado pela atriz Glória Pires, disponível gratuitamente no YouTube.
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