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Com as cheias do Piracicaba, população vai ao rio em conexão com as águas que dão nome à cidade (Foto/crédito: Câmara Municipal) |
Classificado por Pedro Kawai (PSDB) como “rolezinho na água”, o tradicional passeio de boia pelo rio Piracicaba teve suas vísceras expostas quanto à falta de segurança por parte do Poder Público ao entrar no debate político durante a abertura do ano legislativo da Câmara Municipal, em sessão realizada nesta terça, dia 2 – até então, não há registros no Siave (painel de consulta do Legislativo). A prática, que reuniu cerca de 5 mil pessoas no último domingo de janeiro, dia 25, ocorreu sem esquema oficial de segurança do Corpo de Bombeiros, Marinha ou Guarda Civil Militar (GCM) e sem apoio direto da prefeitura por conta da ausência de coordenação formal do evento.
O vereador Laércio Trevisan Jr. (PL) puxou o assunto e foi o mais enfático nas críticas à omissão do Poder Público. Segundo ele, apesar da ampla divulgação do passeio em redes sociais e veículos de comunicação, não havia no local qualquer estrutura da prefeitura, como botes da Guarda Civil Municipal (GCM) ou apoio estadual do Corpo de Bombeiros. “Não tinha ninguém da prefeitura porque o evento não é oficial. Mas se fizer um carnaval de rua na [avenida] Cruzeiro do Sul, aí pode ter estrutura. Qual a diferença”, questionou.
O clima esquentou quando Trevisan citou o vereador Pedro Kawai (PSDB), da base governista do prefeito Hélio Zanatta (PSD), acusando-o de defender a ausência dos Bombeiros no evento. Alegando ter conhecimento técnico na área de segurança, Trevisan destacou que, a partir do momento do anúncio público da agenda do evento, os governos municipal e estadual deveriam se preparar para garantir a segurança da população, independentemente de haver ou não um organizador formal.
Em resposta, Pedro Kawai negou qualquer relação entre o passeio de boia e a morte de um homem registrada no período. “Foi um outro caso à parte. Ele entrou no rio, conhecia o rio e, aparentemente, teve um mal súbito enquanto nadava”, afirmou. O vereador também garantiu que a GCM realizou patrulhamento ao longo do trajeto e, posteriormente, reconheceu, na tribuna, que não é técnico da área, sem comentar diretamente as acusações feitas por Trevisan.
Kawai voltou ao tema ao longo da sessão, reforçando que a responsabilidade não poderia ser atribuída ao Executivo. “Não sou advogado do prefeito, mas, este caso não tem nada a ver uma coisa com a outra”, disse sobre o passeio e a morte. Ele ainda levantou a possibilidade de que eventos no rio Piracicaba dependam de autorização da Marinha, o que, segundo ele, reforçaria a dificuldade de o município assumir a organização do passeio sem um responsável legal.
O vereador Felipe Gema (SD), que atua na área esportiva, trouxe um ponto intermediário ao debate. Ele destacou que, diferentemente de modalidades como o remo — que contam com CNPJ, organização formal e acompanhamento da Marinha — o passeio de boia é uma mobilização popular sem que ninguém assuma oficialmente a responsabilidade. “A Guarda esteve lá, mas dentro do rio não existia fiscalização”, afirmou. Gema também mencionou mortes ocorridas em anos anteriores, associadas a saltos imprudentes no rio, e defendeu ações preventivas como sinalização de risco, nos moldes do que já ocorre em praias.
Para o tucano governista, o passeio de boia se assemelha a um “rolezinho na água”, reunindo diferentes perfis de participantes, inclusive jet skis. “Juntou todo mundo e vamos embora”, resumiu. Ele voltou a defender que, sem um organizador identificado por CPF ou CNPJ, a prefeitura não tem como estruturar o evento, embora reconheça a necessidade de fiscalização e melhor organização por parte do poder público.
De acordo com registros da Câmara Municipal, o passeio de boia pelo rio Piracicaba tem origem nos anos 1990, quando grupos de amigos passaram a descer o rio de forma espontânea em dias de calor. A prática ganhou força ao longo das décadas e se consolidou, especialmente a partir de 2020, como um grande evento popular realizado no início do ano, com percursos que podem chegar a 14 quilômetros, do Largo dos Pescadores, na Rua do Porto, até a rampa de Ártemis.
Diante da dimensão que o evento alcançou e dos riscos envolvidos, o debate levantado no Legislativo expõe uma questão central: por que a Prefeitura de Piracicaba não assume a organização e a segurança de uma atividade tradicional, profundamente ligada à identidade da cidade e ao rio que lhe dá nome? O tema tem tanto apelo que, antes tarde do que nunca, agora o Legislativo se mexe para colocar o passeio no Calendário Oficial de Eventos de Piracicaba, dando alguma chance de garantia à segurança dos participantes.
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