As informações são informações são da agência Aos Fatos, que discorre sobre lobby e negacionismo em convênio de 2022
(Foto: site/Esalq)
A Esalq-USP está no epicentro do lobby do agronegócio para ‘varrer para debaixo do tapete’ informações sobre crise climática e desmatamento na internet e dos livros didáticos. O foco são os alunos dos ensinos Fundamental, do 5º ao 9º ano, e Médio, do 1º ao 3º ano. Esta lebre foi levantada pela agência de checagem Aos Fatos, em duas reportagens, publicadas em fevereiro de 2026, nos dias 9 e 10.
A Escola Superior Luiz de Queiroz, um patrimônio de Piracicaba, funciona como uma curadora do conteúdo para página eletrônica De Olho No Material Didático, especificamente ligada à biblioteca virtual AgroTeca em convênio com a associação Donme firmado em 2022 – o nome e o peso da escola são utilizados para dar legitimidade ao material publicado e confrontar MEC (Ministério da Educação) e editoras.
Além da produção de materiais para internet, o convênio coloca a Esalq com a responsabilidade de “possibilitar a realização de contestações técnicas, que se façam necessárias, de conteúdos presentes nos materiais didáticos do ensino fundamental e médio dos setores educacionais público e privado do Brasil, que fazem referência ao setor do agronegócio nacional”.
Reportagens de Aos Fatos integram projeto Mentiras Plantadas, produzido em parceria com o Pulitzer Center
(Arte: Méuri Elle)
AGROTECA
A primeira reportagem de Aos Fatos, sob o título ‘Pressão do agro altera conteúdos de livros escolares, denunciam editores’, destaca um vídeo desinformativo da AgroTeca que exime o agronegócio da responsabilidade pelo desmatamento. Entretanto, a repórter Gisele Lobato traz à luz dados oficiais mostrando o contrário.
“Aos Fatos checou que, ao contrário do que alega o conteúdo, que utiliza dados desatualizados e fora de contexto, levantamento do MapBiomas aponta que, desde 1985, mais de 60% das novas pastagens no Brasil foram criadas sobre áreas de floresta ou cerrado. No caso da Amazônia, 90% das áreas desmatadas são destinadas a atividades agropecuárias, com a criação de gado ocupando papel de destaque, aponta relatório do projeto Amazônia 2030.”
Sobre o aquecimento global, a segunda reportagem, ‘Agro distorce ciência para tentar promover desinformação climática nas escolas’, mostra a USP rebatendo a própria Esalq sobre um segundo vídeo da AgroTeca, este quanto ao impacto da criação de gado no aquecimento global.
Conforme a matéria, a professora de física atmosférica da Universidade de São Paulo, Luciana Rizzo, analisou o vídeo ‘A pecuária é parte da Solução!’. “Isso é uma falácia”, disse a professora da USP a Aos Fatos. A cientista explica que, “embora já existam técnicas de mitigação das emissões da atividade, elas não são aplicadas em larga escala, fazendo com que a produção de gado ainda seja vilã do aquecimento global e uma das principais fontes brasileiras de metano, que aquece 30 vezes mais que o gás carbônico”.
LIVROS
Voltando para a reportagem do dia 9, a agência de fact-checking foi consultar o mercado editorial e constatou que “todos denunciaram sofrer pressão para retirar dos livros escolares conteúdos verdadeiros, mas considerados negativos para o agronegócio”.
“O trabalho dos autores é sempre muito colado na ciência nacional. Foi pedido que houvesse a mitigação de uma abordagem mais incisiva”, confirmou Maria Cecília Condeixa, presidente da Abrale (Associação Brasileira dos Autores de Livros Educativos) para Aos Fatos.
Os termos mais combatidos em pedidos de alterações pelo De Olho No Material Didático nos livros didáticos com apoio técnico da Esalq são: agrotóxicos, desmatamento, queimadas, mudanças climáticas, consumo de água, conflitos agrários e escravidão contemporânea – temas das disciplinas de Geografia, Biologia, História e Ciências, no Ensino Médio e no Fundamental.
A reportagem ainda relata uma escalada no policiamento de tais termos. “O aumento do patrulhamento é atribuído à atuação da Donme (De Olho no Material Escolar), associação fundada em 2021 e financiada por grandes players do agronegócio, como revelou a Repórter Brasil. A ONG tem como objetivo ‘contribuir para uma educação positiva e atualizada sobre o agro’ e está presente em diversos Estados do País — promovendo parcerias com órgãos públicos, visitas de estudantes a fazendas e ações de lobby junto a parlamentares.”
OUTRO LADO
A reportagem do O Diário Piracicabano procurou Esalq, Fealq (Fundação de Estudos Agrários Luiz de Queiroz), responsável pela gestão do convênio de pouco mais de R$ 50 mil, e o professor-curador do AgroTeca, Rafael Otto, do Departamento de Ciência do Solo da Esalq, mas ninguém se manifestou.
A Aos Fatos, a Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz, por meio de sua assessoria de imprensa, respondeu apenas que “a coordenação do convênio foi revista pela atual gestão da Esalq e as atividades conjuntas serão desenvolvidas com equipe qualificada, vinculada à Comissão de Cultura e Extensão”.
Já a relação da AgroTeca com a Esalq quanto desinformação climática e uso da universidade para dar legitimidade ao publicado, a Donme respondeu à agência discordar de afirmações com viés de falsidade, “ainda que tenha sido endossada por análises baseadas em leituras parciais dos dados disponíveis”. “Estamos completamente à disposição para o diálogo técnico com quaisquer instituições interessadas, com o objetivo de aprofundar o debate e contribuir para um melhor esclarecimento do tema.”
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