Nova ponte 'patrocinada' pelo governo federal terá 1km; editorial puxa a orelha do Poder Público quanto ao planejamento urbano em detrimento do meio ambiente
(Imagem: reprodução/audiência pública)
Ainda sobre meio ambiente, o governo Hélio Zanatta (PSD) mandou para o Legislativo a decisão sobre uma nova ponte sobre o rio Piracicaba, ligando a rodovia Geraldo de Barros (SP-304), na região de Santa Teresinha, à avenida das Ondas, no bairro Ondinhas, num projeto de 1km. O valor da obra está orçado em R$ 50 milhões e o objetivo é desafogar o trânsito na região, concentrado na ponte do Caxão. Mas o preço, a ser pago pelo governo estadual, e a situação do trânsito nem são as principais questões.
O projeto de lei 82/2026 do Executivo foi tema de audiência pública nesta quarta, dia 6, na Câmara de Vereadores, e impactará diretamente vegetação e fauna do Parque Natural de Santa Teresinha - Chico Mendes, criado em 2024, com a prefeitura abrindo mão de uma área municipal de 12.308,66 m² – o equivalente a quase dois campos de futebol no padrão Fifa. Veja números na imagem abaixo.
Já a dimensão do impacto ambiental é de 15.667 metros quadrados quanto à supressão de vegetação – correspondendo a 2,2 campos de futebol, no mesmo padrão – e derrubada de 15 árvores fora de área de preservação do rio – não foram apresentados dados de árvores a serem suprimidas dentro da área de proteção durante a audiência.
Diante da situação e em consulta obrigatória ao Comdema (Conselho Municipal de Defesa do Meio Ambiente), o parecer do colegiado já alerta o governo sobre a frágil situação de cobertura vegetal de Piracicaba, com um índice de 12% e em áreas fragmentadas, conforme dados do MapBiomas – a ponte causará uma nova fragmentação de área verde.
A questão dos bichos e do verde
E, apesar do sinal verde do Comdema ao governo municipal para a obra, o replantio de 225 árvores, exigido por leis, para compensação ambiental será uma etapa menos complexa frente à problemática da fauna – vale destacar que estudos da britânica NHS Forest mostram uma possibilidade de plantio de 2.400 árvores.
A prefeitura de Zanatta terá que correr atrás de criar um Conselho Consultivo da Unidade de Conservação, conforme o artigo 29 da Lei Federal Nº9985/00; fazer um levantamento dos animais que habitam o local; e criar um Centro de Triagem e Reabilitação de Animais Silvestres.
Quanto ao verde, o Comdema também pede ampliação da arborização para além do estipulado em leis. “Fazer da compensação ambiental mais ampla do que o simples plantio de árvores nativas regionais ou condução da regeneração natural”, diz o parecer do colegiado.
Já o prefeito ameniza a situação. “Como solução técnica de mitigação de impactos na área do Parque Natural foi prevista a implantação de estruturas elevadas (ponte/viaduto) nos trechos inseridos em Área de Preservação Permanente, com o objetivo de reduzir intervenções por aterro, minimizar a supressão de vegetação e preservar, sempre que possível, a dinâmica hidrológica e ecológica do sistema. Além disso, toda a interferência passará por compensação ambiental, com recomposição florestal com espécies nativas”, escreveu o prefeito ‘Helinho’ em sua justificativa do PL à vereança. A ver!
Em tempo: diferente de vídeos em circulação nas redes sociais, parte da ponte ficará suspensa na área de APP do Piracicaba, zona de alagamento e faixa com massa verde significativa ecologicamente no parque; há vasta presença de leucenas e pequenas estradas, indicando atividade humana; e o local está em recuperação ambiental e inóspito para lazer e uso humano; e há perigo à fauna com fragmentação do parque.
Em fim... Um rápido editorial
Fato é que a administração de Hélio Zanatta (PSD) tem um histórico tenebroso no meio ambiente: corte de 95% no orçamento da área para 2026 e fechamento da Sedema, Pasta do setor vinculada sob o guarda-chuva da Agricultura logo no início do mandato em Reforma Administrativa em 2025.
E o cenário apresentado nesta edição, com recordes em baixa de reciclagem e alta de lixo domiciliar, revelam Piracicaba com aumento de custos e, diferente da linha adotada em cidades contemporâneas, estamos cada vez mais longe do planejamento urbano para resiliência em tempos de crise climática.
No caso da nova ponte, há de se destacar a necessidade de ampliação dos horizontes por meio de debate e ações do Poder Público em: 1. falta gestão para aumento exponencial e prévia de cobertura vegetal; 2. incremento do transporte público; 3. migração de novos projetos imobiliários para zonas perto do Centro, e, no mesmo sentido, usar do vazio urbano de 50%; 4. e investir no plano diretor com boas práticas ambientais.
Cristiane Bonin
Editora-chefe
Pós-graduada em Direito Ambiental, em curso sob a batuta de Paulo Affonso Leme Machado/Unimep
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