![]() |
Fábrica se conecta ao Engenho Central, formando um conjunto arquitetônico, aponta relator do Condephaat (foto/crédito: Movimento Salve a Boyes) |
O Complexo Beira Rio teve a aprovação nesta segunda, dia 9, para abertura de estudo de seu tombamento no nível estadual em votação unânime no Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo), seguindo a relatoria favorável do conselheiro Eduardo Trani. O colegiado irá se debruçar sobre um conjunto que engloba a antiga fábrica de tecidos Boyes, o Palacete Luiz de Queiroz, a Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz (Praça da Boyes) e o Museu da Água. O aceite no conselho paralisa, por ora, qualquer empreendimento na área, como é o caso do Boulevard Boyes – idealizado com arranha-céus em 2023 pelos empresários Jorge Aversa Jr., Adenir José Graciani e Luiz Carlos Furtuoso, o que abriria precedente perigoso na especulação imobiliária em área de proteção ambiental do Rio Piracicaba mais adensamento de população, com impacto para saneamento a aumento de veículos em ruas estreitas onde é espaço público tradicional de eventos culturais, como a Festa do Divino.
A informação do início do processo de tombamento foi divulgada pelo Movimento Salve a Boyes e pela deputada estadual Professora Bebel (PT). O pedido de proteção do Complexo Beira Rio ao Condephaat foi feito por Marcelo Guidotti, arquiteto e urbanista atuante em Piracicaba com foco em gestão de projetos, patrimônio histórico e cultura – o profissional é descendente de Luciano Guidotti, ex-prefeito do município, e tem contribuído para a preservação histórica local.
“(...) compreende-se
que o valor cultural compatível com a escala de preservação do Condephaat
reside sobretudo na paisagem do salto do rio entre as duas fábricas, vinculada
a origem industrial do município e a relação histórica com a margem do rio, já
reconhecida no Engenho Central de Piracicaba e presente também na Usina Monte
Alegre, atualmente em estudo de tombamento. Há, assim, ao meu ver, indícios que
justificam a abertura de estudo de tombamento voltado ao aprofundamento da
relação visual e histórica entre a Cia. Industrial e Agrícola Boyes e o Engenho
Central de Piracicaba, fazendo uma conexão formada pelos dois conjuntos fabris”, diz, em conclusão, o relator Trani.
A reportagem procurou os empresários e a assessoria informou que "os empreendedores do Boulevard Boyes não se manifestarão sobre o assunto neste momento". Aqui reside um grande embate já travado e decidido pela Justiça, o de que o Condephaat não pode liberar obras em locais com pedido de tombamento quando ambos processos correm simultaneamente no colegiado. Diante disso, o conselho estadual tem tomado a cautela de não decidir nada sobre o empreendimento imobiliário na fábrica abandonada pelos seus proprietários, num claro compasso ao aguardo da Justiça por possível irreversibilidade de dano ao patrimônio local.
Por outro lado, o Salve a Boyes – que defende outros usos para a área – comemorou a decisão do Condephaat (leia nota abaixo). Para a deputada Bebel, também presidenta da Comissão de Educação e Cultura da Alesp (Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo), o empreendimento com apartamentos luxuosos à beira-rio é inviável especialmente em se tratando de patrimônio público – a Boyes é tombada em âmbito municipal.
“Na audiência pública, que reuniu mais de 300 participantes, prós e contra o empreendimento, a deputada Professora Bebel também entregou documento ao presidente do Condephaat, Carlos Augusto Mattei Faggin, destacando que o empreendimento que está sendo proposto para antiga fábrica Boyes está longe de ser consensual e que se trata de um projeto que afetará a orla do Rio Piracicaba, o seu patrimônio histórico e que parece ir na contramão de um desenvolvimento econômico sustentável”, informa trecho da comunicação da parlamentar quanto a prédios com quase 90 metros de altura.
NOTA | SALVE A BOYES
O Movimento Salve a Boyes, juntamente com as entidades, coletivos, organizações culturais, ambientais e cidadãos que apoiam a luta pelo tombamento do Complexo Beira Rio, registra que, na manhã desta segunda-feira, 09, por decisão unânime, o Condephaat deliberou pela abertura de estudo de tombamento da Fábrica Boyes, do Palacete Luiz de Queiroz, da Praça Ermelinda Ottoni de Souza Queiroz e do Museu da Água. Esta decisão representa uma importante vitória da sociedade piracicabana.
Trata-se de um reconhecimento institucional da relevância histórica, cultural e simbólica da área, especialmente no que diz respeito à memória fabril e industrial de Piracicaba, à formação urbana da cidade e à sua relação histórica com o Rio Piracicaba e o Engenho Central. A decisão também reafirma a importância ambiental e paisagística desse território urbano, estratégico não apenas para Piracicaba, mas para o Estado de São Paulo, ao reconhecer o valor público do patrimônio cultural associado às margens do rio, à paisagem do salto e aos bens industriais que estruturaram o desenvolvimento econômico e social da região.
O Movimento e as entidades apoiadoras reiteram que a abertura do estudo de tombamento é um passo fundamental para garantir um processo técnico, democrático e participativo de avaliação, assegurando que qualquer intervenção futura no Complexo Beira Rio respeite a história, a memória coletiva e o interesse público. A nossa luta continua para que esse patrimônio possa servir aos interesses coletivos e anseios da cidade de Piracicaba, pautando os usos públicos e para toda a população!
________
CURTE O DIÁRIO?
Contribua com o jornal:
PIX (chave e-mail)
odiariopiracicabano@gmail.com
Na plataforma Apoie-se
(boleto e cartão de crédito):
https://apoia.se/odiariopiracicabano
***
Apoie com R$ 10 ao mês (valor sugerido).
Precisamos de 100 amigos com essa doação mensal.
Jornalismo sem rabo preso não tem publicidade!
.jpeg)