Entenda motivos do sigilo sobre a delação à Justiça da Aegea e porque executivos da empresa de saneamento procuraram voluntariamente o MPF para relatar seus crimes de corrupção


Graciliano concede entrevista ao jornalista Zé Roberto de Toledo e detalha reportagem-bomba
(Imagens: reproduções/UOL)

Por Cristiane Bonin (MTb 31.139)

Outras duas lebres interessantes levantadas pelo autor da reportagem sobre a Aegea – a única a conseguir furar o sigilo judicial imposto pela Justiça e vazar algumas informações – foram o segredo e de onde saem os R$ 479 milhões acertados em multa para pagamento dos crimes de corrupção. O ponto do sigilo envolve decisão objetiva da Justiça na discussão de foros privilegiados que envolvem desde prefeitos e governadores a deputados e conselheiros de Tribunais de Contas. 

Outro ponto é a grana, conforme questionamento de Graciliano Rocha feito em fevereiro à empresa, antes da publicação da reportagem. O jornalista colocou que o dinheiro usado para pagar os políticos veio a partir de contas de água e esgoto pagas pela população, colocando uma possibilidade de ressarcimento à municipalidade. 

Graciliano conta que não obteve resposta, mas veio um comunicado oficial da Aegea, chamada tecnicamente por publicação de fato relevante, direcionado ao mercado (veja abaixo). Em resumo: caso o jornalismo não jogasse no ventilador o esquema, a empresa nunca iria se pronunciar. 

Também há um segundo fato sobre a delação: os executivos procuraram o MPF (Ministério Público Federal), munidos de provas e lista de nomes, de forma voluntária para eliminar riscos jurídicos porque estava em captação de investimentos a fim de tomar corpo no mercado e conseguir potencial agressivo para participar de contratos na toada da abertura do setor às privadas com o Marco do Saneamento Básico (Lei nº 14.026/2020), iniciativa do governo de Jair Bolsonaro (PL). Veja, abaixo, o fato relevante publicado pela Aegea um dia após ser questionada por Graciliano.

“Em Fato Relevante publicado em 05/02/2026, a Companhia informou a celebração, em 21/4/2021, de Termo de Acordo entre a Montese Engenharia e Comércio Ltda., ex-controlada da Aegea (atual Aegea Engenharia e Comércio Ltda.), e membros do Ministério Público Federal (MPF), com a Aegea como interveniente-garantidora. O acordo trata de fatos anteriores a 2018, apurados por investigações internas e independentes, cujos resultados foram voluntariamente compartilhados com o MPF. Seus termos estão sob sigilo legal. Os impactos financeiros já estavam refletidos nas demonstrações financeiras desde 2021, ano em que foi retirada a ressalva dos auditores relacionada às investigações. O acordo não gera efeitos para a Companhia ou suas concessionárias, que mantêm sólida estrutura de capital, capacidade de honrar dívidas e executar seus planos de investimento. A adesão ao acordo encerra definitivamente temas do passado e reforça o compromisso da Aegea com ética, transparência e integridade, mantendo o foco na expansão do saneamento com qualidade nas cidades onde atua.”

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