Governo de Piracicaba tem gordura de quase R$ 2 bi para queimar: prefeito ‘Helinho’ (PSD) fecha 1º semestre com execução de 37% do Orçamento 2026; saneamento ficou com mais de 70% ‘parados na conta’


R$ 765 milhões ficaram no papel: valor foi empenhado no período sem liquidação; não há transparência pública do governo sobre o status do andamento das obras em curso
(Arte: O Diário Piracicabano)

Cristiane Bonin (MTb 31.139) | de Piracicaba (SP)

Ao estilo déjà vu, o prefeito de Piracicaba Hélio Zanatta (PSD) encerrou os seis primeiros meses de 2026 com execução de 37% do Orçamento Municipal – um pouco pior frente ao mesmo período de 2025, quando este índice foi de 39% (relembre aqui). Até junho, R$ 1,11 bilhão foi efetivamente investido frente à soma de empenho de R$ 1,87 bilhão, com uma gordura para queimar até dezembro de R$ 1,89 bilhão.

A área de Saneamento volta a chamar a atenção ao permanecer em 2026 com o mesmo status de 2025: está entre as quatro macroáreas com três casas de milhão no Orçamento e fechou junho com 71,43% ‘parados na conta’ – este mesmo cálculo foi de 73,11% em idêntico período do ano passado.

Os dados constam no Relatório de Execução Orçamentária, números declarados pela gestão municipal ao Siconfi (Sistema de Informações Contábeis e Fiscais do Setor Público Brasileiro), da Secretaria do Tesouro Nacional.

Das 17 macroáreas mapeadas pela reportagem até o terceiro bimestre de 2026, dez voltaram a ficar acima da faixa dos 70% em verba parada ainda sem liquidação: Comércio e Serviços (93,94%), Gestão Ambiental (81,7%), Habitação (80,39%), Transporte (78,72%), Ciência e Tecnologia (78,2%), Desporto e Lazer (76,66%), Indústria (74,53%), Cultura (71,43%), Saneamento (71,43%) e Agricultura (70,41%).


A reportagem entrou em contato com a prefeitura e com todas as secretarias municipais. Não houve nenhum comentário sobre o desempenho da administração municipal como um todo e nem em particular de cada Pasta até o fechamento desta edição. O espaço segue aberto ao Executivo com possibilidade de atualização no site do jornal.

Bilhões no papel
Os números do Orçamento de Piracicaba em 2026 expõem uma contradição que merece mais explicações do governo municipal: há bilhões de reais previstos nas principais áreas da administração, mas uma parcela expressiva desse dinheiro ainda não havia se transformado em despesa efetivamente liquidada até junho.

Os dados encaminhados pelo município ao Siconfi mostram que as macroáreas analisadas acumulavam R$ 3,011 bilhões em dotações atualizadas. Desse montante, R$ 1,87 bilhão havia sido empenhado, mas somente R$ 1,11 bilhão estava liquidado. Na prática, apenas 37,01% da dotação havia sido liquidada até o período.

O número chama atenção porque o orçamento pode até autorizar a realização de determinada despesa (empenho), mas é a liquidação que demonstra que o serviço foi prestado, o bem foi entregue ou a etapa contratual correspondente foi cumprida. Portanto, entre o que está previsto no orçamento e aquilo que efetivamente avançou existe uma distância considerável.

A diferença entre o empenhado e o liquidado também não é pequena: R$ 765,09 milhões. Esse montante representa despesas já comprometidas pelo município, mas que ainda não haviam sido liquidadas e até podem ser anuladas.

Saneamento: R$ 508 milhões e apenas 28,56% liquidados
Um dos números que mais chama atenção está no saneamento. A função recebeu uma dotação atualizada de R$ 508,47 milhões. Desse total, R$ 367,51 milhões foram empenhados, mas somente R$ 145,24 milhões foram liquidados. A execução liquidada corresponde a apenas 28,56%. O resultado deixa R$ 363,22 milhões ainda sem liquidação.

Dissecando a macroárea, o Saneamento Básico Urbano tem disponível para o ano R$ 263,46 milhões e R$ 188,13 milhões ainda permaneciam no ‘berço esplêndido’ do saldo, aos 71,4%. Já em Saneamento Básico Rural não há nada programado, com zero reais em dotação a regiões onde vivem 9.391 pessoas, conforme o IBGE em dados do Censo 2022.

Em uma cidade que depende de investimentos contínuos em água, esgoto, drenagem e infraestrutura sanitária, o volume financeiro envolvido torna o dado especialmente relevante para fiscalização, mas não há transparência sobre o andamento das obras. Vale lembrar que o Semae enfrenta investigação do Ministério Público quanto à qualidade e relatórios sobre a água para abastecimento municipal.

Os maiores do Orçamento
A maior fatia do orçamento está na Saúde, com R$ 944,37 milhões de dotação atualizada. Até o período analisado, R$ 577,55 milhões haviam sido empenhados e R$ 384,35 milhões liquidados. Isso significa que 59,30% da dotação permanecia sem efetivo investimento. Dentro da macroárea, a maior concentração está em Assistência Hospitalar e Ambulatorial, que reúne R$ 586,14 milhões.

A Educação aparece em seguida, com R$ 708,76 milhões. Foram empenhados R$ 406,96 milhões e liquidados R$ 276 milhões. O saldo sem liquidação chega a R$ 432,76 milhões, ou 61,06% da dotação.

Não se trata de áreas periféricas do orçamento. Saúde e educação concentram recursos diretamente relacionados à prestação de serviços públicos essenciais. Por isso, a diferença entre orçamento autorizado e execução efetiva precisa ser acompanhada com atenção.

O Urbanismo apresenta situação semelhante. A dotação atualizada chega a R$ 554,76 milhões, dos quais R$ 382,58 milhões foram empenhados e R$ 211,95 milhões liquidados. Restam R$ 342,81 milhões sem liquidação, equivalente a 61,79% da dotação.

Somando Saúde, Educação, Urbanismo e Saneamento, as quatro macroáreas concentram aproximadamente R$ 2,72 bilhões, cerca de 90% do Orçamento 2026.

Ou seja: a execução dessas quatro áreas praticamente determina o comportamento do orçamento municipal analisado o que, historicamente, acaba encerrando o ano com, ao menos, meio bilhão em caixa, indicando baixa eficiência na execução do governo.

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