Cristiane Bonin (MTb 31.139) | de Piracicaba (SP)
Processo de tombamento do conjunto fabril chega ao fim do processo no Estado de São Paulo sem atender pedidos de associação nacional de arquitetura
(Foto: divulgação)
A decisão do Condephaat (Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo) de aprovar, por maioria, o tombamento do conjunto formado pela antiga fábrica Boyes, Palacete Luiz de Queiroz e Museu da Água nesta segunda, dia 14, representa uma conquista para a preservação do patrimônio histórico e cultural de Piracicaba. Mas, segundo manifestações encaminhadas ao órgão estadual, a proteção aprovada mantém pontos considerados frágeis justamente na relação do complexo com a paisagem da Beira-Rio.
A Associação Brasileira de Arquitetos Paisagistas (Abap-SP), em manifestação apresentada no processo, havia defendido a realização de estudos complementares antes da decisão, argumentando que a antiga fábrica não poderia ser analisada como uma edificação isolada. Para a entidade, o valor patrimonial está diretamente ligado às relações entre o conjunto industrial, o Rio Piracicaba, o salto, a vegetação, os espaços livres e demais estruturas históricas da orla.
Tombo: ficaram de fora
Entre as principais preocupações da associação está a ausência de proteção específica para o canal de água que integra o antigo sistema hidráulico da fábrica. Documento encaminhado aos conselheiros sustenta que o canal foi fundamental para o funcionamento industrial desde o século XIX, relacionando indústria, água, energia e tecnologia, além de manter conexão física e paisagística com o Palacete Luiz de Queiroz.
Outro ponto é o Edifício 08, onde permanece a inscrição ‘BOYES’. Embora seja uma construção de etapa posterior da história da fábrica, o documento afirma que sua volumetria, altura e posição fazem dele um dos principais marcos visuais do complexo. Sua retirada, portanto, alteraria a silhueta e a leitura histórica da antiga fábrica.
A terceira lacuna apontada é a falta de um gabarito construtivo objetivo para novas edificações. A manifestação alerta que intervenções de grande escala podem modificar de forma irreversível a relação entre o patrimônio e o rio. Como referência, propõe limite de 16,50 metros para a área da fábrica, correspondente à altura aproximada do Edifício 08, e 9 metros para a área envoltória inserida na Zeihc (Zona Especial de Interesse Histórico e Cultural).
Tombo: as ressalvas
O Movimento Salve a Boyes considera que tais lacunas não significam autorização automática para demolições ou novas construções. Qualquer intervenção em bens protegidos e em sua área envoltória continuará sujeita à análise do Condephaat. O alerta, porém, é que proteger edifícios sem preservar sua escala, visibilidade e relação com o rio pode resultar em uma proteção apenas parcial. Mas há outra análise, em sentido contrário: “foi muito triste ver mentiras, articulações, falta de análises serem expostas pelo Presidente do Condephat [Victor Hugo Mori] defendendo os empresários [proprietários do conjunto fabril]. O piracicabano está à beira de perder sua orla [quanto à especulação imobiliária]”, avaliou a arquiteta Fatima Cristina Scarpari que participou da sessão de votação no Condephaat.
O desafio agora é transformar o tombamento em uma salvaguarda efetiva. Como resume a manifestação, preservar não significa congelar a cidade ou impedir investimentos, mas estabelecer regras para que novos usos sejam incorporados sem eliminar os atributos históricos, arquitetônicos, ambientais e paisagísticos que justificaram a proteção.
________
CURTE O DIÁRIO?
Contribua com o jornal:
PIX (chave e-mail)
odiariopiracicabano@gmail.com
Na plataforma Apoie-se
(boleto e cartão de crédito):
https://apoia.se/odiariopiracicabano
***
Apoie com R$ 10 ao mês (valor sugerido).
Precisamos de 100 amigos com essa doação mensal.
Jornalismo sem rabo preso não tem publicidade!