A Prefeitura de Piracicaba está colocando sob ameaça de inanição a partir desta segunda, dia 3, os 900 animais abandonados do Cemitério da Saudade por meio da burocratização da distribuição de ração. Em reunião no dia 20 de julho do Departamento de Proteção e Bem-Estar Animal (DPBEA), sob o tema Organização do Fluxo de Entrega de Insumos e Cadastramento Judicial, a gestão Hélio Zanatta (PSD) suspendeu a entrega in loco e impôs um único dia da semana, às segundas-feiras, em horário restrito, das 8h às 11h, para a retirada de ração no Centro de Controle de Zoonoses, localizado nos cafundós do bairro Jupiá (veja imagens do documento abaixo). A situação gera um sério problema de logística para as cuidadoras voluntárias da maior colônia de gatos abandonados do Brasil.
A advogada do grupo Gatos do Cemitério da Saudade, Silvia Machuca, tomou conhecimento da situação neste sábado, 1º de agosto, data do aniversário do município, e, à reportagem, enviou artigo abaixo e demarcou que não há nada a se comemorar na data. Os animais abandonados estão em próprio público e são de responsabilidade integral do governo municipal, com implicações na saúde pública.
O contexto é de uma peleja judicial para obrigar a prefeitura a entregar a ração desde que Hélio tomou posse do cargo do Executivo em 2025. Frente à derrota recente na Justiça dentro de ação popular, a decisão da prefeitura é a de obstaculizar o trabalho voluntário feito por pessoas que doam seu tempo disponível após o horário comercial, grupo que não têm disponibilidade de tempo e nem recursos próprios para atender a burocratização imposta pela prefeitura.
A reportagem entrou em contato com a prefeitura e, se houver manifestação do governo, a matéria será atualizada.
Chegamos ao fundo do poço com esta Prefeitura
Por Silvia Machuca, advogada do grupo Gatos do Cemitério da Saudade
O assunto é o drama dos gatos do Cemitério da Saudade.
Há cerca de 18 anos, um grupo de cuidadoras e cuidadores, conhecido como Grupo Gatos do Cemitério, liderado por Elcian Granado, dedica sua vida a alimentar e cuidar, diariamente, de centenas de gatos abandonados no local.
Um trabalho inteiramente voluntário, movido apenas por compaixão e responsabilidade.
Desde 2014, a Prefeitura passou a fornecer parte da ração, enquanto o grupo sempre arcou com o restante. Desde 2022, eram fornecidos 30 quilos diários, e as cuidadoras complementavam com mais 10 quilos, do próprio bolso. Então veio a atual gestão.
A partir de 1º de janeiro de 2025, já no governo do prefeito Helinho Zanatta, a Prefeitura simplesmente cortou integralmente a ração por quatro meses. Se não fosse o esforço sobre-humano dessas voluntárias, teria ocorrido uma mortandade sem precedentes.
Em maio de 2025, a Prefeitura voltou a fornecer ração, mas apenas metade da quantidade necessária: 15 quilos por dia.
Foi preciso recorrer à Justiça para garantir aquilo que sempre foi indispensável para a sobrevivência dos animais: o fornecimento de 30 quilos diários. A Justiça concedeu liminar. A Prefeitura não cumpriu. Foi necessário denunciar o descumprimento, o juiz intimar o Município para prestar esclarecimentos e, somente depois disso, a administração voltou a fornecer a quantidade determinada.
Mas parece que isso incomodou.
Agora, a Prefeitura decidiu dificultar ainda mais a vida de quem faz o trabalho que ela própria nunca fez. A partir de agora, pretende entregar toda a ração em cota semanal, obrigando as cuidadoras a retirarem, por conta própria, 210 quilos de ração na Zoonoses, sempre às segundas-feiras, das 8h às 11h, por ordem de chegada.
Quem não conseguir comparecer nesse horário simplesmente perde a cota da semana. Nem sequer informaram quando essa nova regra começaria a valer. Enquanto isso, nesta semana, a ração está acabando. Os funcionários do Cemitério da Saudade tentam contato com o setor de Bem-Estar Animal para informar que o estoque dura apenas até segunda-feira.
E a resposta? Silêncio absoluto.
Como se isso não bastasse, na reunião realizada houve um tom que muitos interpretaram como verdadeira intimidação. Foi informado que a Prefeitura fará fiscalizações sem aviso prévio para verificar se os gatos estão sendo bem cuidados, se existe suposto desvio de ração e quais são as condições do ambiente, chegando a mencionar eventual responsabilização civil e criminal das cuidadoras.
É inacreditável.
A Prefeitura dificulta a vida de quem faz exatamente o trabalho que ela deveria realizar e jamais realizou. Durante anos, ninguém da administração pública se preocupou com esses animais. Foram essas mulheres e homens que impediram que centenas de gatos morressem de fome.
Agora, em vez de reconhecer esse trabalho extraordinário, a Prefeitura parece preferir criar obstáculos, impor burocracia e ainda levantar suspeitas sobre pessoas que dedicam quase duas décadas de suas vidas à proteção desses animais.
Quem deveria receber apoio está recebendo desconfiança.
Quem deveria ser homenageado está sendo tratado como problema.
É uma vergonha o que esta gestão vem fazendo com a cidade de Piracicaba.
________
CURTE O DIÁRIO?
Contribua com o jornal:
PIX (chave e-mail)
odiariopiracicabano@gmail.com
Na plataforma Apoie-se
(boleto e cartão de crédito):
https://apoia.se/odiariopiracicabano
***
Apoie com R$ 10 ao mês (valor sugerido).
Precisamos de 100 amigos com essa doação mensal.
Jornalismo sem rabo preso não tem publicidade!